quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Texto com um título energúmeno

NUNO BASTOS



Ao iniciar-se na leitura desta bodega fica o magnífico leitor habilitado a conseguir chegar ao término da mesma bodega. Portanto, excelso leitor, se por algum motivo de força maior tiver desejos de ignorar a existência desta coisa que por aqui vai, pode fazê-lo e ir dedicar-se a qualquer outra coisa. Se quiser continuar a ler esta porcaria, então siga lendo.

Creio com toda a certeza que o que escrevo é absolutamente desinteressante e até eu próprio fico aborrecido com todo este palavreado aparvalhado. Comecei a escrever esta palermice depois de ter rebolado o meu corpo nu ao longo do chão da minha casa, mas só rebolei até me apetecer. Antes disso eu estava vestido e fui discutir Nietzsche com o semáforo que fica ali ao fundo. Gosto de discutir Nietzsche com ele e às vezes o merceeiro da esquina vem debater connosco. O semáforo é um entendido em Nietzsche mas o merceeiro é mais Jung.

Ainda antes de discutir Nietzsche com o semáforo, estive a pregar um prego numa parede porque, ao longo do dia, a sombra do prego vai-se movendo pela parede. E, por certo, o meu magnânimo leitor sabe que, para pregar um prego numa parede, é necessário um prego e um martelo, além da parede e de alguém que martele o prego.

Antes do prego já não me lembro o que fiz, mas antes disso que não me lembro olhei para um telefone. Ele não fez barulho mas eu olhei à mesma. Um telefone costuma fazer barulho ou tocar uma cantiga. Antes de olhar para o telefone também já não me lembro o que fiz e antes também não. E acho que antes também não.

Costumo discutir filosofia com outros semáforos mas aquele é o mais sabido. Há um semáforo que só vê Platão à frente e há um outro semáforo que só quer saber do Sartre. Às vezes vou com o merceeiro da esquina ter com um desses outros mas ele só quer saber do Jung. O merceeiro vende batatas, couves e hortaliças no geral. Também lá tem bolachas, massas e cereais. A mercearia dele é pequena e tem demasiadas coisas à venda e quase não há espaço para os clientes se mexerem lá dentro e a caixa registadora é grande demais para uma mercearia tão pequena como aquela. O merceeiro é casado com a merceeira, uma mulher antipática e que nunca é simpática. O merceeiro e a merceeira não têm filhos porque não têm filhos. São só eles os dois que trabalham na mercearia da esquina. Em frente da mercearia da esquina há uma loja que vende roupa e que tem bonecos grandes na montra para mostrar a roupa que vende e lá ao lado há uma loja que tem aqueles bonecos que mexem e que cantam quando alguém lhes mete uma moeda. A mulher que trabalha na loja de roupa também é antipática. Eu só gosto do merceeiro e da filha da mulher da loja de roupa. O merceeiro é simpático mas a filha nem por isso. A filha da mulher da loja de roupa namora com um rapazola com barba e que diz que é muito macho porque defende a namorada. Uma ou duas vezes chamei uns quantos nomes a esse rapazola e ele ficou muito ofendido e depois correu atrás de mim e eu fiz queixa ao merceeiro. Depois veio a mulher da loja de roupa e perguntou-me o que queria eu da filha dela e eu disse-lhe que não é com a filha dela mas sim com o rapazola. Quando lhe disse isto, a mulher afastou-se e eu procurei o moçoilo para lhe chamar mais uns quantos nomes. Depois acho que fui falar com o merceeiro, já não me lembro bem. E antes também já não me lembro o que estava a fazer e só me lembro de começar a escrever isto. Sei que depois abri a porta e fechei-a e depois fui ver se estava a chover. Antes disso eu estava sentado no sofá e antes de estar sentado no sofá, eu estava em pé. Estive com a filha da mulher da loja de roupa e falei com ela. Perguntei-lhe se ela acha que o rapazola é um brutamontes e ela ficou ofendida. Depois foi fazer queixa ao rapazola que correu atrás de mim e eu corri à frente dele. Ele tem barba e muitos músculos. Depois eu corri à frente dele e entrei para a mercearia e fingi que era cliente mas a mulher do merceeiro expulsou-me porque é antipática e continuei a correr à frente do rapazola. E antes disso já não me lembro o que estava a fazer.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Miguel Real escreve sobre o último livro de Richard Zimler

MIGUEL REAL



O Evangelho Segundo Lázaro, novo livro de Richard Zimler, segue a construção habitual dos seus anteriores romances: 1. - um horizonte histórico real atravessado por elementos do fantástico, neste caso no imaginário judaico; 2. – um estilo realista ancorado nos movimentos sociais e ideológicos da época, neste caso nas lutas colectivas de revolta contra o invasor romano da Judeia; 3. – uma intriga bem alicerçada, coesa nas suas partes, neste caso em torno da vida de Jesus Cristo e da ressurreição de Lázaro; 4. – uma harmonia esteticamente bem conseguida entre os diálogos, a descrição da realidade e a narração íntima (o interior da mente das personagens), nes caso sobretudo através das divagações de Lázaro.
Neste sentido, na literatura portuguesa actual, as narrativas de Richard Zimler constituem-se como as que mais exploram o tema da relação entre História e Cultura, nomeadamente a da espiritualidade judaica. No caso português, esta característica torna-se evidente logo no seu primeiro romance, O Último Cabalista de Lisboa (1996), saga da família de Abraão Zarco ao longo da matança da comunidade judaica na Lisboa dos Descobrimentos (1506). A família Zarco, através dos seus descendentes, surgirá em outros romances do autor, como em Goa ou o Guardião da Aurora (2005), em Meia-Noite ou o Princípio do Mundo (2003) e em A Sétima Porta (2007). Do ponto de vista do romance europeu, Richard Zimler afirma-se como o autor que mais longe leva, sem dogmatismos, a herança espiritual da cultura judaica (não da religião).
O realismo permanece e domina no seu segundo romance, Trevas de Luz (1998), a união entre Belticino, com medo do escuro (alusão ao título), a viver em São Francisco, e Peter, um português originário de Angola, dotado de um espírito andrógino, uma espécie de anjo humano (passe o paradoxo). Meia-Noite ou o Princípio do Mundo (2003) é um dos seus melhores romances, decorrido no século XIX no Porto e, a partir do capítulo 30, na atmosfera escravocrata da América. “Meia-Noite” é um curandeiro africano trazido pelo pai escocês de John Zarco Steward, o protagonista, da África do Sul para o Porto. Tropas de Napoleão invadem esta cidade, o pai de John é morto, a esposa e o filho exilam-se em Inglaterra, mais tarde John seguirá para a América em busca de “neia-Noite”, que fora comprado e feito escravo. “Meia-Noite” carrega consigo, na Europa e na América racionalistas, positivistas e cristãs, o panteão dos deuses africanos: a Hiena – o mal; o Louva-a-Deus – o bem, isto é, as forças biocósmicas criadoras e impulsionadoras do mundo. E é invocando-as que “Meia-Noite” cura John soprando-lhe nos ouvidos. A mãe de Jonh profere a frase principal do livro, frase-resumo da filosofia errante sefardita (e, quem sabe, iluminadora de todos os romances do autor): “É um paradoxo, mas penso que voltei de novo para casa num país estrangeiro” (p. 255). Goa ou o Guardião da Aurora (2005) explora o tema da prisão de alguns descendentes da família Zarco pela Inquisição de Goa. Em À Procura de Sana (2006), o narrador identifica-se com o autor, que conhece Sana num encontro de escritores em Sidney. Sana suicida-se após a representação de Lisístrata de Aristófanes e o narrador tenta reconstruir a vida e a identidade de Sana, que passa pela sua amizade com Helena em Haifa (Israel), desenhando um convívio frutuoso entre palestinianos e israelitas. A Sétima Porta (2007) traz-nos de novo o universo da família Zarco e a descoberta de outros manuscritos de Abraão Zarco (primeiro romance), que, decorrido ao longo da ascensão de Hitler ao poder, descreve profecias sobre o fim do mundo, como que anunciando o Holocausto judaico. A exploração do tema judaico continua em Os Anagramas de Varsóvia (2009), decorrido no gueto de Varsóvia. Em A Sentinela (2013), o autor tematiza a corrupção em Portugal nos negócios e na política.
2.        - O Evangelho Segundo Lázaro
O Evangelho Segundo Lázaro tematiza o milagre bíblico da ressurreição de Lázaro, narrando o mistério do seu retorno à vida por efeito de um cântico e um encantamento de Jesus sobre o peito de Lázaro. Jesus demorara-se, atrasara-se, não chegara a tempo de salvar Lázaro da doença que o oprimia e, como que revoltado, e um pouco sem saber o que está fazendo, ressuscita-o. Lázaro é apresentado como o grande amigo de infância de Jesus. Lázaro salvara Jesus de morrer afogado, vincando mais os laços de união entre os dois amigos e as suas famílias (José e Maria, pais de Jesus, e o avô de Lázaro, bem como os seus dois filhos e as duas irmãs, Miriam e Marta). O realismo histórico, habitual em Richard Zimler, obriga-o a grafar as festas religiosas judaicas, os topónimos, a gastronomia, a flora, algumas expressões e os nomes das personagens em hebraico, apresentando no final um elucidativo e prestimoso “Glossário”. Torna-se, assim, mais coesa a narrativa, evidenciando uma forte fidelidade aos veios históricos do tempo e do espaço enquadradores do romance.
Jesus, ainda que com sólidas ligações à transcendência, ao mundo do deus judaico, de quem se sente inspirado e com o qual dialoga, é apresentado como um mágico e curandeiro popular, como muitos que então existia no território de Israel, não como o profeta messiânico dos quatro evangelhos canónicos. No final, Lázaro, recordando a vida do amigo e o papel que nela desempenhou, escrevendo a seu neto Yaphiel, como que se indigna de ver Jesus transformado em ídolo (messiânico) de comunidades cristãs dogmáticas fanatizadas que constituirão, posteriormente, o corpo da futura igreja de Roma.
A primeira meia centena de páginas de O Evangelho Segundo Lázaro é fabulosa – a descrição (que é igualmente narração intimista de Lázaro) do milagre da ressurreição. Vale o romance todo! O que não significa menor qualidade das restantes, mas são estas primeiras páginas que marcam a vinculação amorosa e encantatória de Lázaro a Jesus, que ao amigo sacrifica vida, filhos e amizades. Lázaro é um ladrilheiro e trabalha para os poderosos de Israel e para colonos romanos (Anás, Lucius…). O sinédrio judaico não aceita a ressurreição de Lázaro e persegue-o, obrigando-o a fazer silêncio do milagre, ainda que a população o considere um abençoado e procure o seu convívio. O ambiente social e religioso é, assim, de opressão de Roma sobre Israel, Jesus conclama a multidão judaica a invadir o templo no tempo da Páscoa e, como relatado em outros evangelhos, é preso e crucificado.
Verdadeiramente, Lázaro é apresentado, no romance, como o 13º apóstolo, que, tal como Maria Madalena, recolhida em segredo após a morte de Jesus, se mantém fiel à imagem do genuíno Jesus, o verdadeiro, não o Cristo da futura igreja romana.

O Evangelho Segundo Lázaro,
Porto Editora, 456 pp, 17,70 euros.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Du Narish e de outras figuras

NUNO BASTOS





Du Narish, conde de Lá, visita frequente do duque Bemcolirado, anda enamorado por ambas as filhas do duque supra citado. As formosas moças, de nomes Nárriná e Linguá, mostram frontes desejadas por locais e lacaios e gozam de privilégios de ordem vária corpo fora. E tantos são, que pretendentes não lhes faltam, desde galantes cavaleiros a galope, até quixotes que montam mula emprestada.
Du Narish, enquadrado nos aspirantes, pretende assegurar-se de ambas as donzelas, mas o duque, progenitor fero de fogo, faísca ainda pelas ventas quando observa o conde em seus domínios. Foi largada a fúria por ter Du Narish maculado com odor característico o quarto de Nárriná que se via pronta para declinar esse dia. Deveu-se o odor ao aroma nutritivo que espalha o conde sobre si e que escorre corpo abaixo enquanto cobre pilosidades pele afora. Do aroma é segredo que nem vê-lo ou não fosse o conde ciente da exclusividade promissora.
Pois que estava em dias idos o odor em quarto alheio quando o duque, em passagem austera pelos arrabaldes, fungou o cheiro que se escapava, suprimindo a porta que encerrada se fazia. Reagiu veloz à primeira deliberação lembrada que era a de haver um estranho recostado no aposento de sua prole e irrompeu quarto adentro, intentando segurar às forças o malandro que se intrometera com Nárriná. Mas qual fabuloso espanto ao descobrir, recostada nas cabeceiras da cama, a sua mui amada filha, segurando entre mãos um livro que se dizia ser bom e de qualidade. Perguntou-lhe o duque da proveniência de tal odor e respondeu-lhe a moça que lhe desconhecia o paradeiro mas que poderia dar-se o caso de haver surgido rumando pela janela que permanecera dia fora tão escancarada quanto possível. E assim, de semblante satisfeito, deu as boas noites à protegida e extraiu-se do aposento, deixando atrás de si a porta tão cerrada quanto estava.
Novamente o odor, dessa vez ao fazer evoluir o passo austero diante da porta do quarto de Linguá, parando o duque Bemcolirado de ouvido colado à escura madeira que faz a divisória. Buscou voz masculina que salpicasse dos arredores da sua filha, mas nada ouviu e surgiu imponente no interior do quarto, assustando Linguá de tão rápido que aparecera.
Linguá, que se trocava para a noite, quedou-se de susto aberto e cobriu-se veloz com a roupa tirada. Ainda de ouvido atento e de olhar esgazeado, quis o duque saber da origem do cheiro sugado por suas fossas. A moça nada sabia, sugerindo o exterior como fonte da nascente e que algum vento de passagem o havia trazido para o interior. Sossegou-se o duque mas manteve-se de vistas acesas, perscrutando o cenário com olhar caçador. E dando as boas noites à moçoila aturdida, soltou-se dos interiores do aposento e continuou viagem em passo austero.
E tinham três passados quando ao quarto passo declinou a marcha por ouvir do aposento de Nárriná um riso agudo seguido de som de macho que montava a voz de sua filha. Dessa vez, furibundo quanto baste, entrou o duque no aposento, pegando com as vistas azuis, inconcebíveis cenas desenroladas no colchão de Nárriná. Da origem do odor tomou nota também, pois que era advindo do conde desnudado que se quedava tão nu quanto a moça.
Cobrindo-se Nárriná e fugindo Du Narish, largou-se o duque atrás do conde, citando-lhe impropérios e demais palavreado realçado. Du Narish, gritando não ter culpa fez, assim, pior por acusar Nárriná, tornando-a vadia de ocasião. Bemcolirado, de ventas fumegantes, lançou-se num salto tocando ao de leve as arrecuas do conde que se encontravam esbanjantes da substância odorífera que havia escorrido desde matina do topo do crânio cabeludo. Parando depois o duque, avistando a sua mão gordurenta, içou-a rumo ao nariz para sorver bem sorvido o aroma largado. E confirmando a resposta da origem do cheiro, já Du Narish se havia surripiado porta fora, ficando o duque olhando fero para Nárriná. A moça, que cobria as vergonhas, desviava os olhos do pai, baixando-os ao colchão.
Saiu, então, o duque correndo do quarto e entrando no vizinho, pensando encontrar Du Narish com Linguá. Para espanto fantástico, nada havia às vistas de ver, mostrando-se o aposento tão vazio quanto um copo vazado. Veio-lhe às ideias a perseguição do rasto odorífero para surgir de caras com Du Narish e, possivelmente com Linguá. Mas de parte foi posta essa criação por haver odor espalhado por área indefinida e abrangente. E, assim, largou-se sentado no aposento, aguardando a chegada de Linguá na demanda de justificação a propósito do acto de fuga.
Passou a noite e já o galo cantava alto quando Linguá retornou, encontrando as fuças ventosas do senhor seu pai que fumegavam a bom vento. Suspendeu-se a filha de movimentos, pois que trazia pressas nas pernas, gelando congelada diante do duque. Em silêncio se fez a pergunta da localização exacta do tratante a quem chamam Du Narish e disse-lhe a moça que havia regressado às suas terras.
Içou-se o duque do cadeirão e mandou emissário aos domínios do conde que na rápida cavalgadura entregou ordem de duelo a Du Narish. Recebendo e concordando com o anunciado, enviou o conde de volta o emissário aos domínios de Bemcolirado. E tudo se arranjou para o dia do duelo, esperando o duque no lugar por um conde que não apareceu por se haver enrolado, em simultâneo, com Nárriná e Linguá, largando-as ainda antes do retorno do pai. Desse dia em diante, esquiva-se Du Narish das vistas observacionais do duque que se desalma pela caçada do malandro.