quinta-feira, 20 de junho de 2013

O renovado solstício

FERNANDO MORAIS GOMES

Litha chegou a 21 de Junho, o primeiro do verão, no antigo contar dos dias e um dos oito sabaths. Alexandre, no jardim da velha casa mirou as flores já pujantes, era o momento em que o confortante Sol chegaria ao zénite e o mundo das flores, folhagens e pastagens se encontraria, florido e verde. Retido em Sintra, este ano não iria a Stonehenge, lá, eterno, o círculo de pedra continuaria alinhado com o nascer do Sol. Tudo estava escrito, explicou à filha, a pequena Débora: após a união da Deusa em Beltane, o deus adulto viraria pai dos grãos e traria o verão e a fertilidade. E sendo esse o seu auge, também anunciaria o seu declínio após a sua função fertilizadora, utilizando o Barco da Morte para serenamente morrer em Samhain. Seria então a partida do Deus do Carvalho e a chegada do Deus do Azevinho, que duraria até ao branco e frio Yule.

Muitos verões Alexandre partilhara esse festim, também Débora, fruto do seu enlace com Ana, nascera num solstício de amor e dádiva. Ana partira, precoce a Barca da Morte colhera-a aos trinta, agora, com Débora e mais Irmãos da Floresta na clareira da Peninha, esperaria o Solstício, vigilante e agradecido. Depois do trabalho, pegou em Débora e com a Letícia, o Álvaro e a Mila partiram para a serra. Druida incógnito na selva urbana, Alexandre colheria cura para enfermidades, no balsâmico visco e no fértil basílico preservaria a energia nos tempos frios, em encantamentos e sortilégios.

Chegaram pela tarde, muitos lembrariam a data, em Stonehenge ou no Alvão, anónimos irmãos da Floresta reuniriam. Na Serra Sagrada, junto ao lago, aprontaram os preparativos para um banho purificador, em noite de Litha, acreditavam, tudo aquilo que fosse sonhado, desejado, ou pedido, tornar-se-ia realidade. Ana não viria esse ano, era certo, mas a crença em dias melhores e o futuro de Débora, eram suficientes para um redobrado fervor de Alexandre, o maluquinho das ervas, como colegas do banco o tratavam, a Susana do departamento de crédito, de olho nele, batizara-o carinhosamente de Panoramix. Como os povos antigos, acreditavam que, nessa noite criaturas mágicas correriam pelos campos e florestas, podendo facilmente ser vistos. Iniciando o ritual, queimaram os amuletos do ano anterior e novos talismãs, poções e filtros foram feitos, em momento de confraternização. Alexandre e Álvaro prepararam uma fogueira, a grande fogueira de Beltane, por cima dela mais tarde todos pulariam para afastar a negatividade, qual S. João, sem sardinha nem alho-porro. No final desse dia maior, a Grande Roda Solar do Ano alteraria o seu curso, e de novo os dias voltariam a encurtar, cíclicos e promissores, dando lugar ao azevinho-rei. Uma mesa foi improvisada na clareira: vegetais, frutas, pão de centeio integral, cerveja e hidromel seriam o cobiçado banquete. Fragrâncias foram libertas pelo ar já perfumado do eucalipto e dezenas de velas coloridas adornaram o altar de oferendas: camomila, sabugueiro, cânhamo, lavanda, glicínia ou verbena. Tudo preparado, Alexandre agarrou a mão de Débora, já com uma coroa de trigo na cabeça, e foram recolher pedras para formar um círculo com três metros de diâmetro e iniciar a cerimónia. Com uma vara de madeira, Alexandre traçou uma estrela de cinco pontas dentro dum círculo de pedras, enquanto os outros acendiam velas verdes, colocando uma em cada ponta do pentagrama, começando pelo leste. Colocada uma pedra grande e achatada ao centro, voltada para norte, como um altar, e sobre ela uma estátua da deusa, e de cada lado dela acenderam uma vela branca, e no ponto cardeal correspondente ao Ar, um sino de latão, consagrado, e um incensório com mirra.
No ponto correspondente à Água, um cálice de vinho, um prato com sal e uma tigela com água da chuva. Enquanto na Cidade Grande, apressados humanos corriam para casa, findo um dia de trabalho, na Floresta Límpida, um punhado de sábios do Mundo Oculto celebrava o Novo Ciclo, abrigados na serra testemunha de muitas lithas e yules e ciosa de segredos milenares. Abençoando o vinho, depois de coberto o cálice com as mãos, Alexandre consagrou-o à Deusa e salpicou um pouco de sal e água sobre o sino de latão, a abençoá-lo. Aceso o olíbano e a mirra, levantando os braços para o céu, fechou os olhos e deixou que pensamentos e visões agradáveis lhe invadissem a mente, a pequena Débora, de olhos igualmente cerrados, sorria, lembrando a Mãe, na sua primeira Lithia, e todos em silêncio repetiram o ritual, tombava já uma última réstia de sol dos lados do mar. Colocado o sino no altar de pedra e levados os cálices com vinho aos lábios, beberam e derramaram o resto no centro do pentagrama, em devoção à Deusa. Depois, colocado o cálice vazio no altar, tocaram o sino três vezes, e ajoelhando, ofereceram incenso e continuaram o banquete cantando músicas mágicas. Estava celebrado o Solstício, pujante podia vir agora o Verão, a invadir os ares e os campos.
No dia seguinte, Débora iria até à praia, com os colegas do infantário. Ainda inebriado da véspera, no banco, Alexandre acolheu com um sorriso cúmplice o Sol que benigno lhe entrou pelo gabinete. Talvez a Susana do crédito quisesse almoçar com ele e partilhar uma salada com o Panoramix das cobranças, os faunos na Serra apreciariam, contentes. Esperançoso, ligou-lhe, talvez o próximo solstício tivesse mais uma participante.

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